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Artigo: Herdeiros responsáveis - Patrus Ananias

2006-07-13 - 14:06

Herdeiros responsáveis - artigo Patrus Ananias

Nós, brasileiros, temos, muitas vezes, uma visão amarga e pessimista sobre nós mesmos. Trata-se, a meu ver, de sentimentos ciclotímicos: oscilamos entre a euforia e a depressão. A nossa paixão pelo futebol explica, pelo menos em parte, esse comportamento emocional. Em questão de minutos, vamos do aplauso e da adesão mais incondicional aos nossos times e seus jogadores, às vaias mais exigentes quando os nossos craques não correspondem aos nossos desejos e expectativas.

 

As conquistas históricas são lentas e exigem paciência e perseverança. Assim também no campo político e social, vamos do entusiasmo à frustração com extrema facilidade. Um acontecimento secundário, um fato que seguramente não terá lugar de destaque na história, as trapalhadas de um personagem menor podem prevalecer sobre um quadro de realizações e conquistas coletivas, atingindo as nossas esperanças e ferindo a auto-estima nacional.

 

Todos nós, homens e mulheres de boa vontade e comprometidos com o bem do povo brasileiro, queremos que o Brasil se encontre consigo mesmo no desenvolvimento, na liberdade e na justiça social. Queremos agilizar o nosso encontro com a história e com o nosso próprio destino. Sabemos que há um enigma nacional a ser decifrado e resolvido. Por que ainda, não obstante a nossa extensão territorial, vantagens climáticas, recursos naturais e as reconhecidas qualidades do nosso povo, não tiramos o pé do atoleiro do atraso econômico, social e tecnológico? Angustia-nos, e com razão, termos mais de 11 milhões de famílias vivendo abaixo dos limites da dignidade e 100 milhões de compatriotas que não têm acesso a redes de esgoto ou estarmos entre os países mais violentos do mundo e perdermos, a cada ano, mais de 20 mil jovens assassinados.

 

Mas se é saudável essa inquietação – diria mesmo, indignação –, que, bem direcionada, nos tira da indiferença, do comodismo e nos impele para trabalhos e realizações concretas que apontem para a superação desse quadro de injustiças e iniqüidades, penso que ela deve incorporar, por outro lado, uma boa dose de lucidez e discernimento. Sobretudo, deve ser enriquecida com as lições da história, que nos ensina que todos os povos e países tiveram e têm os seus problemas. Ao longo do século XIX e boa parte do XX, recebemos levas de imigrantes europeus, japoneses, libaneses, entre outros, obrigados a sair de seus países acossados pela miséria e pela fome.

 

As conquistas históricas são lentas e exigem paciência e perseverança. Exigem ações coletivas, compartilhadas e solidárias. Os estudos da história – do Brasil e de outras civilizações – nos revelam que, aos trancos e barrancos, expressão do nosso saudoso Darcy Ribeiro, o País e a humanidade caminham e vão assimilando novos padrões e conquistas éticas e sociais. Se esses avanços civilizatórios estão vinculados às ações competentes de governos comprometidos com o bem público, se pressupõem a presença e a eficácia do estado e seus agentes, passam também pelas iniciativas das pessoas e da sociedade. A construção de uma pátria soberana e justa, que acolhe e cuida dos seus filhos e filhas é, sobretudo, opção de um povo. Cada um tem que dar a sua contribuição e fazer a sua parte. O Brasil é de todos nós e de cada um, nos direitos e nos deveres.

 

* Patrus Ananias é ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome

 

* Artigo publicado originalmente em 01/04/2004 no jornal Estado de Minas (MG).
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome
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