Artigo: Fé e política - Patrus Ananias
Fé e política - Artigo do ministro Patrus Ananias
Por Patrus Ananias
Participei no dia 4 de dezembro, em Londrina (Paraná), do IV Encontro Nacional do Movimento Fé e Política, quando falei sobre o tema As utopias da fé e as realidades da política. O período natalino nos recoloca as exigências éticas do cristianismo em face dos limites e possibilidades do momento histórico em que vivemos no Brasil e no mundo. Os evangelhos nos apontam para uma dimensão utópica que é a progressiva realização da promessa de Jesus: Vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude.
Vivemos um período histórico singular: notáveis avanços tecnológicos nos meios de comunicação e transportes
O direito à vida, à dignidade da pessoa humana, assim como dos povos e das nações, não é uma abstração jurídica e moral. Ele se traduz na prática nos direitos e deveres da cidadania. A prática das virtudes e valores democráticos e republicanos pressupõe o atendimento das necessidades materiais básicas, como o direito à alimentação com qualidade e regularidade, o direito à moradia que se articula com o direito à família alicerce do convívio social e do desenvolvimento com os direitos ao trabalho, à educação, aos cuidados com a saúde, à auto-estima, à cultura, à informação.
na terra aos homens (e mulheres) por ele amados. O Nazareno é o Príncipe da Paz e esta, como ensinam os grandes textos cristãos, é fruto do desenvolvimento com justiça social, da solidariedade e do amor ao próximo. Padre Lebret, um autêntico seguidor de Jesus, nos ensinava que hoje o nosso próximo mais próximo é toda a humanidade sofredora! Mais próximo ainda de nós, o povo pobre do nosso grande e querido País.
Quando mergulhamos nos estudos e na vivência da História percebemos, à luz da fé, que a aventura humana sobre a face da Terra tem um sentido, ainda que às vezes oculto e misterioso, e que ele incorpora conquistas e avanços civilizatórios. Mas o tempo de Deus não é o tempo dos homens e a história não caminha de forma constante e linear. Temos períodos históricos mais sombrios, com grandes e trágicos retrocessos. Nos subterrâneos invisíveis dos corações e das mentes, dos inconscientes individuais e coletivos, dos povos em ascensão determinados a encontrar o seu destino, as sementes do bem e da esperança não cessam de germinar e brotar.
Vivemos um período histórico singular: notáveis avanços tecnológicos nos meios de comunicação e transportes. Mas seguramente um período de retrocessos sociais nos últimos 25 anos, na esteira do neoliberalismo. Os últimos anos do século XX e o limiar do XXI foram marcados por uma esmagadora hegemonia do capital em face do trabalho e dos valores éticos e sociais. É nesse contexto que o povo brasileiro opta pelas mudanças sem aventuras desvinculadas das condicionantes históricas elegendo o presidente Lula. É o voto na estabilidade econômica, mas também no desenvolvimento social, cultural, ético-espiritual. É aí que se colocam as realidades da política. Como abrir e calçar o caminho dos nossos melhores sonhos e desejos? Como prevenir a sábia advertência de Guimarães Rosa: querer o bem com demais força e incerto jeito já é principiar por desejar o mal? Vivemos uma realidade histórica concreta: impõe-se às forças democrático-populares uma criteriosa avaliação desse momento, recuperando os velhos e bons desafios da análise objetiva da realidade, das correlações de forças econômicas, sociais, políticas e culturais no país e o quadro internacional. As boas intenções não são suficientes. A nossa geração viveu 1964, 1968, a tragédia do Chile em 1973. Por outro lado, não podemos ficar aquém dos horizontes que se abrem.
Como cristão vivi, entre outros, um momento de forte emoção no governo Lula. Quando os ministros nos reunimos para discutir o orçamento de 2005 foi dito, de início, que duas prioridades já estavam postas pelo presidente da República: o Bolsa Família , dentro do programa estratégico e unificador do Fome Zero 8,7 milhões de famílias pobres e a reforma agrária integrada com os programas de apoio aos assentamentos e à agricultura familiar. Para esses programas os recursos serão disponibilizados em função das metas dos programas. Vi ali, reafirmada, a opção preferencial pelos pobres, a opção primeira de Jesus de Nazaré. Dentro do contexto histórico que nos foi dado viver, o governo Lula reafirma o compromisso de construirmos a paz no Brasil. O apelo sempre presente em cada Natal!
Patrus Ananias - Ministro do Desenvolvimento Social e Combate a Fome