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Artigo: Tempos muito estranhos - Patrus Ananias

2006-07-13 - 13:06

Tempos muito estranhos (Artigo Patrus Ananias)

Peço licença a Doris Kearns Goodwin para reproduzir o título do seu livro, muito bom, sobre Franklin e Eleonor Roosevelt. Certo de que não vivemos os tempos apocalípticos do nazi-fascismo, do stalinismo e da Segunda Guerra Mundial. Mas estamos mergulhados numa época cinzenta, desprovida de projetos e valores universais, fragmentada. É também uma era – como foi o início dos anos 30 do século passado, nos Estados Unidos, quando os Roosevelt chegaram ao poder – marcada pelas desigualdades, injustiças e exclusões, dos mais variados tipos – econômicos, sociais, nas áreas do conhecimento, da informação e da cultura.

A minha geração, a dos anos 70, nos desdobramentos das utopias desejantes de 1968, ousou sonhar alto.

A minha geração, a dos anos 70, nos desdobramentos das utopias desejantes de 1968, ousou sonhar alto. Não queríamos pouca coisa: queríamos recuperar e aprofundar a democracia na perspectiva do socialismo libertário, enraizado no compromisso com os direitos e deveres fundamentais da pessoa humana. Estávamos rigorosamente convencidos, na linha da melhor tradição cristã e humanista, de que era possível e necessário integrar as conquistas das revoluções liberais dos séculos XVII e XVIII com os avanços sociais vinculados às lutas populares e às revoluções  socialistas do século XX.

Nos nossos projetos generosos, para o Brasil e para o mundo, integrávamos liberdade e justiça social, democracia e igualdade de direitos e oportunidades. O nosso socialismo “com face humana”, como queriam os checos, silenciados pela força bruta dos tanques russos, fundava-se no ideário do bem comum: as melhores condições para o desenvolvimento da pessoa e da comunidade, a emancipação dos sujeitos, incorporando, inclusive, a contribuição civilizatória da psicanálise, integradas no processo de libertação do povo brasileiro e de todos os povos em busca de sua afirmação e identidade. Defendíamos vigorosamente os princípios da função social da propriedade e do lucro. Direito de propriedade, sim, mas, se não subordinado, pelo menos integrado nas exigências superiores do direito à vida com dignidade para todos. Afinal, nós éramos jovens e razoáveis: queríamos o impossível!

A democracia foi sendo reconquistada no Brasil em lerdos passos, a famosa “distensão lenta, gradual e segura”. Da anistia, em 1979, às eleições presidenciais diretas de 1989, foram dez anos! Mas conquistamos e ampliamos os espaços democráticos com a maior participação do povo e dos mais variados movimentos sociais e culturais. Esbarramos, todavia, nos avanços e conquistas populares. As classes pobres, operárias e setores médios foram duramente atingidos com a onda neoliberal, o capitalismo triunfante dos anos 80. Ainda nos tempos da ditadura, lutávamos por novos espaços no campo das relações sociais: contratos coletivos que ampliassem os direitos legais dos trabalhadores, segurança no emprego, direito de greve nos limites da responsabilidade social e do bem público, participação nos lucros e na vida das empresas, co-gestão.

A modernização tecnológica, os surpreendentes avanços da informática e dos novos mecanismos de produção trouxeram o desemprego de grandes contingentes de pessoas. Este, o desemprego, é o maior e mais eficaz instrumento de desmobilização dos assalariados. Os esforços para a conquista dos novos direitos ficam reduzidos à luta desesperada pelo emprego, que passa a ser um quase privilégio, e busca de novas alternativas de sobrevivência.

Ocorre, nesse contexto, uma profunda e inquietante contradição: os notáveis progressos científicos e o retrocesso nos direitos trabalhistas e nas exigências éticas de relações sociais em bases mais razoáveis e racionais; as extraordinárias possibilidades, do conhecimento e a massa dos deserdados e dos excluídos dos novos horizontes do saber. Esse, por usa vez, não se integra em possibilidades reflexivas e filosóficas e se fragmenta nos saberes específicos e especializados dissociados das abordagens mais amplas e sistêmicas. Muita informação e pouquíssima elaboração sobre o momento histórico que estamos vivendo. No campo dos valores morais, presenciamos o horror; vale como nunca a metáfora do evangelho – engole-se um camelo e coa-se um mosquito.

É nesse contexto adverso de desigualdades e exclusão, de concentração de riquezas e conhecimentos, que o governo do presidente Lula busca formas que assegurem o direito à vida a partir do direito à alimentação, do direito à família e das condições elementares, para que as crianças possam ir e aprender na escola e terem, filhos e pais, os cuidados básicos com a saúde. Não vivemos nesse quadro de globalização e pós-modernidade um momento de grandes realizações no campo dos valores humanos e coletivos. No Brasil, estamos trabalhando com muita dedicação e seriedade para garantir aos pobres os direitos básicos, inclusive para que possam, mais à frente, viver novas aventuras e possibilidades. Agora não é mais 1968, mas é também tempo de sermos razoáveis e lutar pelo possível, aqui e agora. A história não acabou. Outros sonhos e realidades, impossíveis agora, ressurgirão! Da nossa parte, estamos plantando as sementes.

 

Patrus Ananias,Ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome

Artigo publicado 17 de março no jornal "Estado de Minas"

 

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