Artigo: Investir na dignidade humana - Patrus Ananias
Investir na dignidade humana - artigo Patrus Ananias
Por Patrus Ananias
Um mundo globalizado, diversificado e movido por inovações tecnológicas avançadas traz em seu bojo a promessa de um futuro melhor, onde as distâncias podem ser reduzidas, os países, mais unidos, e o trabalho, menos penoso e com mais retorno para as pessoas. No entanto, a realidade se apresenta contraditória e distante da promessa e, sozinhos, a tecnologia e o desenvolvimento não contemplam integralmente as potencialidades de desenvolvimento humano. A introdução de novas tecnologias no sistema de produção capitalista provocou uma mudança profunda no paradigma do mundo do trabalho, exigindo qualificação cada vez maior de seus trabalhadores. Como as condições para a qualificação não foram distribuídas igualmente, ao invés de unir o mundo e encurtar distâncias, assistimos ao aumento da dívida social, do fosso da desigualdade que marca a linha da segregação social separando ricos e pobres e separando os que tiveram acesso ao conhecimento e os que estão excluídos desse direito.
Essa situação reforça a tese de que a lógica da exclusão é antagônica à do crescimento econômico, funcionando como um entrave às possibilidades de expansão. Em vez de ampliar suas potencialidades, as tecnologias se restringem a um grupo cada vez mais seleto. Celso Furtado atribui esse paradoxo à subordinação da inventividade técnica aos interesses de reprodução de uma sociedade fortemente inigualitária e de elevado potencial de acumulação.
Nessa situação, a política social assume caráter de questão de Estado. Mais ainda, de questão central de qualquer Estado que pretenda promover seu desenvolvimento, aproveitando na plenitude todo seu potencial humano. Sem isso, arrisca-se a comprometer até mesmo a força de trabalho que impulsiona o crescimento. Há que se ampliar as possibilidades de mercado, abrir perspectivas futuras, investir em projetos de inclusão produtiva, programas de geração de trabalho e renda.
Mas há uma ampla parcela da população que precisa de ajuda para integrar a nova realidade. Alguns nunca tiveram oportunidade de participar do mercado de trabalho. Outros foram empurrados para a informalidade e perderam as oportunidades de acompanhar as evoluções tecnológicas. Hoje se encontram defasados dentro do mundo do trabalho. Essas pessoas não têm condições de satisfazer suas necessidades básicas no mercado, e o Estado, em parceria com a sociedade, precisa interferir nessa situação para impedir que essas pessoas resvalem para a miséria absoluta.
No Brasil, convivemos com uma dívida herdada de um passado em que o acesso à educação foi limitado, assim como outros direitos fundamentais da nacionalidade e da cidadania. Só muito recentemente na história brasileira trabalhou-se a perspectiva de democratização da educação, mas com prejuízo de qualidade, o que castigou os mais pobres. Isso gerou um contingente grande de pessoas pouco ou nada preparadas para competir no mercado.
As políticas sociais normatizadas, principalmente as de transferência de renda com condicionalidades como o Bolsa Família e as de assistência social, são investimentos estratégicos para que o país possa enfrentar a situação e, efetivamente, procurar revertê-la. Aliadas a políticas estruturantes, são necessárias ações emergenciais que possam reestruturar pessoas e famílias, de modo que elas possam aproveitar os outros investimentos sociais e terem acesso aos benefícios das inovações tecnológicas.
Vocês trabalham para quê? Essa era a pergunta feita aos cientistas por Galileu Galilei, na obra do brilhante Bertoldt Brecht, para responder logo em seguida: Eu sustento que a única finalidade da ciência está em aliviar a canseira da existência humana. Reconhecer e assumir a dimensão social do trabalho é ponto fundamental para realização pessoal e desenvolvimento da coletividade. O saber deve vincular o trabalho e ambos devem estar submetidos e condicionados pela responsabilidade e pela justiça social. Da mesma forma, os investimentos em crescimento econômico, isoladamente, não trazem a solução para todos os nossos dilemas. Além da dimensão ética do respeito à vida, que por si já seria suficiente para justificá-la, a política social tem um efeito concreto que é o de formar consumidores e dinamizar economias locais, servindo como poderoso esteio para as condições de sustentação do desenvolvimento econômico. Creio que só com essa clareza de totalidade de projeto de homem que ciência, técnica e crescimento podem cumprir a promessa de promoção da dignidade humana.
Artigo publicado originalmente em 14/03/2005 no jornal Correio Braziliense (DF).