Artigo: Sobre família e juventude - Patrus Ananias
Artigo: Sobre família e juventude
Patrus Ananias*
Fui convidado a participar na semana passada de dois eventos na Itália que permitiram a proveitosa oportunidade de troca de experiências de políticas públicas, principalmente na área social. No Vaticano, participei como palestrante, expondo os programas do Fome Zero, a convite da Pontifícia Academia de Ciências Sociais, de um encontro destinado a discutir políticas voltadas para as novas gerações, sob um tema bastante significativo: Desaparece a Juventude? A solidariedade com crianças e jovens em tempos turbulentos. Em Pádua, discuti a promoção do desenvolvimento regional com representantes de organizações governamentais e não-governamentais na Semana de Cooperação e Solidariedade com o Brasil.
São dois momentos para reflexão sobre os desafios que se apresentam para o Brasil e para o mundo na construção de sociedades mais dignas e um reconhecimento de esforços e conquistas do governo e da sociedade brasileira. Muito atual e oportuno o debate promovido pela Pontifícia Academia de Ciências Sociais e gostaria de chamar atenção sobre ele que propõe a reflexão sobre alternativas para a juventude numa perspectiva que ultrapassa a questão socioeconômica.
O mundo globalizado e neoliberal produziu uma época fragmentada, desprovida de valores universais, onde convivemos com exclusões dos mais variados tipos. Este momento impõe-nos o desafio de resgatar, incorporar e ampliar valores éticos cuja sedimentação nos últimos dois milênios tiveram a influência do melhor pensamento cristão, fundado na defesa da dignidade humana, no primado da vida, na defesa do bem comum, no cuidado com os pobres.
O Brasil sente esses efeitos da pós-modernidade globalizada, acrescida de uma dívida social histórica que por muitos anos acentuou nossas desigualdades sociais. Famílias desintegradas, jovens com pouca ou nenhuma perspectiva, desemprego, trabalho infantil, violência sexual contra crianças e adolescentes, prostituição infantil, fome. São os desafios que estamos enfrentando e superando.
Esse contexto reforça a urgência de ações públicas que estamos desenvolvendo para consolidar no Brasil uma efetiva rede de proteção social, na perspectiva de recuperar e consolidar os vínculos familiares não só como um apoio fundamental na construção da emancipação social dos sujeitos, mas, também, como espaço pedagógico e esteio para formação de valores éticos e referências culturais e de solidariedade indispensáveis na formação de novas gerações integradas a um projeto nacional.
Por isso afirmamos que as nossas políticas públicas são planejadas à luz de valores éticos que conformam o que há de melhor na tradição cristã e no ensino social da igreja, no sentido de promover e desenvolver o princípio da opção preferencial pelos pobres. O investimento em educação que nosso governo tem feito projeto de criação do Fundeb, ampliação das vagas no ensino superior, por exemplo são importantes ações que valorizam a juventude. As ações que estamos desenvolvendo na área educacional e das políticas sociais têm se revelado um caminho profícuo no processo de afirmação dos direitos da criança e do jovem no contexto da família e da comunidade. Assim tem sido com o investimento na integração dos programas sociais a partir do Bolsa Família e também das Casas das Famílias, como são conhecidos os Centros de Referência de Assistência Social, que promovem a transversalidade das políticas e servem como espaços para desenvolver projetos de capacitação das famílias atendidas. Se contabilizarmos exclusivamente os programas desenvolvidos em nosso ministério, estimamos cerca de 17 milhões de crianças e adolescentes atendidos por programas de promoção social.
Em relatório divulgado no início deste mês, a Unicef reconhece o esforço do Brasil e dos outros países da América Latina e Caribe na erradicação da desnutrição infanto-juvenil e indica bons resultados nessa área. A chamada nutricional que realizamos mostra que o índice de desnutrição infantil no semi-árido, que, em 1996, era de 17,9%, caiu para 6,6% no ano passado. Entre as crianças incluídas no Bolsa Família o índice é ainda menor: 4,8%.
Com renda básica familiar, os programas voltados para juventude, como o Pró-Jovem, e o incremento de ações de capacitação profissional, voltam-se a abrir para nossos jovens os horizontes de um futuro mais promissor. As suas famílias são de novo referência. Temos, senão todos, pelo menos muitos e importantes motivos para olhar para o futuro do Brasil com esperança. Estamos no rumo!
(*) Patrus Ananias é ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.
Artigo originalmente publicado em 08/05/06 no jornal Correio Braziliense.