Cultura indígena vai à mesa
22/01/2007 10:49
O programa do Sesi Cozinha Brasil, respeitando as tradições, capacitou 140 índios de Caucaia (CE) sobre o valor e a importância dos alimentos
Uma mistura de ingredientes bastante diferente foi experimentada pela primeira vez pelo programa Sesi Cozinha Brasil, em Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza (CE). Mais de 140 índios da etnia Tapeba descobriram um outro lado do mundo da culinária, ainda desconhecido. De touca, avental e livro de receitas, se surpreenderam com o valor e a importância dos alimentos – a maioria deles familiares às suas tradições culturais, como a mandioca, a batata doce, a abóbora e o milho. As informações que tinham, transmitidas de geração em geração, foram agregadas a conhecimentos que, a partir de agora, serão incluídos no dia-a-dia das famílias. Com uma condição importante: o respeito total à cultura e às raízes.
O grupo faz parte de seis comunidades Tapebas, de um total de 17, que somadas representam cerca de cinco mil índios na região. A seleção dos alunos priorizou pessoas que, de alguma maneira, estejam ligadas à alimentação, como as merendeiras de dez escolas indígenas, mães de crianças desnutridas, gestantes, jovens, idosos, professores – cinco eram homens. “Até eles conseguiram romper o preconceito - que define os papéis masculino e feminino dentro das tribos - e também fizeram o curso”, conta o presidente da Associação das Comunidades dos Índios Tapeba (Acipa), Ricardo Weibe Nascimento, 23 anos.
Para garantir que não haveria interferência nos hábitos culturais indígenas, Weibe conta que foram convidados a participar da organização e do conteúdo das aulas. “Foi uma preocupação mantê-los próximos à realidade cotidiana”, acrescenta. Ele lembra que as comunidades são muito carentes e que aprender o melhor aproveitamento dos alimentos, reduzindo o desperdício, foi muito importante. As cascas que antes eram descartadas, agora têm função garantida no preparo do cardápio.
O material didático utilizado pela turma, com noções de segurança alimentar, nutrição e alimentos funcionais – além de 100 receitas - foi cedido gratuitamente, e as aulas ministradas por dois nutricionistas e dois auxiliares de cozinha, na unidade móvel do programa, estacionada no pátio da Escola Diferenciada da Lagoa Tapeba, no distrito de Capuã.
Aprendizado e preservação cultural
Para a coordenadora do programa Liane Lohmann Silveira, o resultado da iniciativa também foi uma surpresa. “Começamos a nos surpreender com a quantidade de pessoas interessadas no curso e depois com a participação durante as aulas”, anima-se, já pensando na próxima edição do Cozinha Brasil para comunidades indígenas. No encerramento do curso, houve uma grande confraternização não apenas entre os participantes, mas uma grande troca de pratos e receitas.
“A preservação da cultura alimentar das comunidades tradicionais é fundamental nesse tipo de iniciativa e faz parte do nosso empenho e preocupação”, comentou a coordenadora-geral de Educação Alimentar e Nutricional da Secretaria de Segurança Alimentar e Nutricional, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), Sabrina Ionata. O programa Sesi Cozinha Brasil-Alimentação Inteligente é desenvolvido em todo o País em parceria com o MDS. O Ministério garante a manutenção das unidades móveis – caminhões equipados com cozinhas experimentais - em que são realizadas as aulas, além do combustível e do material didático distribuído entre os alunos.
Graças a esse convênio entre o Serviço Social da Indústria (Sesi) e o MDS, em 2006, 143 mil e 27 pessoas foram capacitadas em 486 municípios de todos os Estados brasileiros. No Ceará, o total foi de 3.716 pessoas em nove municípios.
O objetivo do programa é disseminar informações e garantir que novos agentes multiplicadores sejam formados, levando às comunidades em que vivem o conceito de alimentação saudável, de baixo custo, respeitando as diversidades regionais e culturais e favorecendo a geração e melhoria de renda familiar.
Além de ter sido beneficiada com o Cozinha Brasil, a comunidade Tapeba é atendida pelo MDS, por meio do programa de distribuição de cestas de alimentos, entregues a 810 famílias, e Bolsa Família, que repassa recursos para cerca de 500 famílias indígenas.
Informações para a imprensa
Katia Marsicano – (61) 3433-1052
ASCOM / MDS






