CRAS itinerante acolhe mais de 27 mil ribeirinhos no Amazonas
09/10/2007 17:30
Embarque na aventura pelo rio Solimões. Em plena selva amazônica, é por meio do barco do CRAS que os serviços socioasistenciais chegam aos ribeirinhos de Coari (AM).
Bruno Spada/MDS
Após a visita do CRAS itinerante, dona Maria abre o sorriso e mostra o cartão do Bolsa Família
Maria sabe que o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) itinerante – conhecido por Barco Cidadão – vai ancorar na comunidade ribeirinha onde mora. A última visita foi em maio – lá se vão quatro meses. Ela pensa: “Que bom. Vão trazer coisas boas para nós”. Os “nós” são, na verdade, 53 famílias que vivem à margem do rio Solimões, distante duas horas a noroeste, de barco, do município de Coari. Que, por sua vez, só tem acesso por água ou ar e fica no coração da selva amazônica.
As comunidades ribeirinhas, como a de Maria, são aqueles pontos de civilização cercados de floresta e rios vistos do alto de um avião. É um aglomerado de casas, no qual telefone e luz não chegam à esmagadora maioria e que bastam alguns metros para adentrar a mata fechada. Em vez de deixar as 205 comunidades (ou 22.005 ribeirinhos) à própria sorte, a Prefeitura de Coari, por meio da Secretaria Municipal de Assistência Social, resolveu inovar.
“O barco surgiu inicialmente para levar documentação à área rural”, explica a secretária municipal de Assistência Social, Joelma Gomes Aguiar. “Aí, posteriormente, com a implantação do CRAS urbano, com o SUAS [Sistema Único de Assistência Social], com a habilitação do município em gestão plena, nós sentimos a necessidade de ampliar as nossas ações e nos profissionalizarmos”. Foi quando saiu de cena o Barco Cidadão e apareceu o CRAS itinerante.
Dia da visita do CRAS
Amanhece. É quinta-feira. Maria está aflita. Não vê a hora de a tarde chegar. Ela e o marido, Luis da Silva, de 49 anos, nem vão à roça cuidar das mandiocas, bananas e malvas. Mria arruma a casa e prepara o almoço rapidamente. Dá uma da tarde e a família de seis filhos está com o pé na terra em direção a Vila do Trocarís. São trinta minutos de caminhada até chegar ao centro da comunidade, local previsto para a visita do CRAS itinerante.
O barco atrasa. Mesmo assim, a comunidade continua à espera. A expectativa de “coisas boas”, como disse Maria, pode ser traduzida nos seguintes serviços gratuitos: palestra sobre DST/AIDS, a partir da necessidade identificada pela equipe técnica do CRAS, corte de cabelo, atividade socioeducativa para crianças e adolescentes, acompanhamento das famílias inseridas nos programas de transferência condicionada de renda Bolsa Família (federal) e Direito à Cidadania (municipal), documentação e atendimento do Conselho Tutelar.
No CRAS itinerante, os ribeirinhos são acolhidos pela equipe de assistentes sociais e psicólogos e vistos como coarienses com direitos iguais aos moradores da cidade. Com direito, inclusive, à assistência social pública onde quer que seja – mesmo que demore até 24 horas de barco para se chegar até lá.
Antes das visitas do barco, Joelma Gomes lembra que os ribeirinhos estavam abandonados e que as comunidades mais distantes nem contato com a cidade tinham. “A idéia do CRAS itinerante é levar o direito socioassistencial até eles. Melhor do que trazê-los até Coari e tirá-los do habitat natural”, afirma. Para a secretária nacional de Assistência Social do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), Ana Lígia Gomes, o barco é uma estratégia eficiente de garantia dos direitos socioassistenciais às populações ribeirinhas.
CRAS na beira do rio
Antes de ir à Vila Trocarís, o CRAS itinerante passou a manhã em São Pedro da Vila Lira, também à margem do rio Solimões, só que duas horas a leste de Coari. Trouxe os mesmos serviços e foi recebido com idêntica alegria. O líder do lugar, algo como um “prefeito”, Sebastião Silva, mostra-se alegre com as freqüentes visitas do barco. E, esquecendo-se que mora na beira do rio, assegura: “O CRAS está na porta de casa”.
Ele sai da escola municipal em direção as casas dos ribeirinhos. Quer alertar aos desavisados sobre a presença do barco. Caminha pela trilha, atravessa uma pequena ponte e chega à casa de Ivanilce Santos da Silva, de 27 anos. Ao lado dos filhos, ela espera pela volta do marido, que foi pescar, para ir ao centro da comunidade ver o CRAS itinerante. De banho tomado e arrumada, Ivanilce desiste de aguardar e corre para conhecer os visitantes.
Sobe no barco pela primeira vez e conversa com a tripulação. Tem uma dúvida sobre o Bolsa Família.Ivanilce recebe R$ 95 do programa de transferência de renda do MDS e outros R$ 100 do programa municipal Direito à Cidadania. Dona Maria, a da Vila Trocarís, tem direito aos dois benefícios também.
Vai anoitecendo e já é hora do CRAS itinerante seguir viagem. Hoje, excepcionalmente, ele volta para Coari. Em visitas mais distantes, fica vinte dias longe da cidade. Um dia numa comunidade, à noite ancorado noutra e assim por diante. O motor começa a movimentar o barco. Os ribeirinhos ficam olhando. Alguns arriscam um aceno, outros um tchau. Todos, porém, têm a certeza de um até logo.
Leia: Viagens do CRAS itinerante no Amazonas
Confira todas as matérias especiais já publicadas no Portal MDS
Vítor Corrêa* – (61) 3433-1054
Coordenação de Comunicação Eletrônica-ASCOM/MDS
* O repórter viajou até Coari (AM) para escrever esta matéria especial.










