Artigo: Globalizar a solidariedade, uma missão - Patrus Ananias
Sob a hegemonia do pensamento neoliberal, a globalização acabou por deixar uma penosa dívida para a humanidade. A promessa de uma sociedade sem fronteiras, com espaços encurtados foi severamente comprometida pelo aumento da desigualdade, da fome, da miséria, da fome, da desnutrição, do desequilíbrio ambiental. Isso alargou distâncias, aprofundou processos de segregação. O que se globalizou foi o capital, na lógica da concentração, do acúmulo, do consumo excessivo. Para reverter o quadro, a resposta possível, que se coloca como principal missão de todos os países, é o desafio de globalizar a solidariedade, o trabalho, as iniciativas em defesa da vida.
As desigualdades sociais, as mais de 800 milhões de pessoas que passam fome no mundo são alguns sinais da insuficiência do pensamento neoliberal e os que acreditamos que a humanidade pode ser um projeto viável, temos o dever de encontrar alternativas para um mundo mais justo. A luta contra a fome e a pobreza é de todo mundo, ainda que as soluções sejam específicas e adaptadas às realidades de cada país, respeitando as diversidades, territórios, culturas. Os processos de cooperação, intercâmbio e troca de experiência entre os países deve ser uma forma de construção, e quem entra para ensinar deve saber que também tem muito a aprender.
Entre os dias 25 e 29 de agosto, estamos realizando em Brasília um seminário internacional para apresentação de trabalhos de um grupo de estudos criado a partir da cooperação Brasil/África intermediada pelo Ministério Britânico para o Desenvolvimento Internacional (DFID). Esse trabalho se insere na política do DFID de estimular o aprendizado Sul-Sul e compartilhar a experiência do Brasil em Promoção e Proteção Social, principalmente com a África. Essa parceria representa uma forma de aprofundar os laços políticos, diplomáticos e de desenvolvimento entre o Brasil e os países africanos, que expressaram interesse em receber conhecimentos técnicos sobre estratégias de desenvolvimento social.
A Cooperação Sul-Sul tem se difundido na comunidade internacional como forma de fortalecer a capacidade dos países em desenvolvimento para elaborar e implementar estratégias nacional de redução da pobreza. Há um reconhecimento crescente da importância das parcerias estabelecidas entre países em desenvolvimento para compartilhar experiências de consolidação e expansão das redes sociais, que têm comprovado seu potencial para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.
A aproximação entre o governo Brasileiro e o DFID começa em maio de 2005, quando o Brasil realizou visitas técnicas, com apoio da instituição britânica, à África do Sul, Nigéria e Inglaterra para apresentar a experiência do Programa Bolsa Família. No ano seguinte, o DFID nos apoio na realização de outra visita técnica, também voltada para discutir programas de transferência de renda condicionada, como o Bolsa Família, em seis países africanos: Gana, Moçambique, Nigéria, Guiné Bissau, África do sul e Zâmbia. Em 2007, foi formalizada a cooperação para execução de um plano piloto em Gana, que teve avaliação positiva.
Neste ano, estamos em nova fase da cooperação, que prevê expansão do intercâmbio realizado em Gana para outros países. Para o trabalho, o DFID está disponibilizando £ 200 mil (equivalente a R$ 631 mil). Pela proposta, foi instituído um comitê gestor de cooperação entre DFID, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e Centro Internacional contra a Pobreza (IPC). Esse comitê faz acompanhamento estratégico nos países incluídos na cooperação, incluindo cooperação regional, visitas técnicas ao Brasil, cooperação técnica entre os países e elaboração de um website do Programa Brasil-África de Cooperação em Promoção e Proteção Social para registrar e compartilhar os estudos realizados.
Em nosso seminário, essas experiências estarão em debate. Estaremos reunindo uma missão de estudos para promover a troca de informações e conhecimentos entre o MDS e representantes dos governos africanos.
Os tempos são difíceis e nossos desafios são grandes. Mas se estamos conseguindo vencer a fome e a pobreza em nosso país, isso há de ser possível também em outros lugares. Nós podemos ajudar. E certamente, com isso teremos muito a aprender para continuar na consolidação, expansão e aperfeiçoamento de nossa rede de proteção e promoção social até alcançarmos nosso objetivo: que a todos sejam dadas as mesmas oportunidades.