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Artigo: Crise de valores - Patrus Ananias

14/08/2006 11:28

* Patrus Ananias

Evidente que há uma grave crise, no Brasil e no mundo, nas instituições que expressam os esforços individuais e coletivos em busca de uma vida melhor, aquilo que o filósofo Eric Weil chamou de felicidade razoável para as pessoas, as famílias e as sociedades politicamente organizadas. No nosso país, ela se manifesta hoje, de maneira mais grave e aguda, no espaço por excelência da representação popular: o Poder Legislativo. Mas os acontecimentos de Rondônia e tantos outros mostram que a contaminação é mais profunda. Em Rondônia, a corrupção era comandada pelos presidentes da Assembléia e do Tribunal de Justiça e pelo procurador-geral de Justiça.

A crise das instituições não elimina o espaço das responsabilidades pessoais, o espaço das escolhas e opções pelo qual cada um de nós é responsável dentro das condicionantes históricas e culturais. Por isso não pode haver nenhuma concessão com a impunidade. Entre nós é importante reconhecer, para não perdermos a esperança, que as ações anti-sociais estão sendo confrontadas dentro do mais absoluto respeito às liberdades públicas e democráticas e que há uma ação eficaz da polícia federal, do Ministério Público e da Controladoria Geral da União no desvendamento das práticas de corrupção e no desmantelamento de quadrilhas que há décadas assaltam o patrimônio público. Importante, sobretudo, resgatar o testemunho das pessoas de bem - a grande maioria do nosso povo - que “não cessam de criar” e tecem as redes da solidariedade, da partilha e da justiça social.

Mas, se não podemos abstrair as responsabilidades dos infratores, tampouco podemos olvidar a frase lapidar do filósofo espanhol Ortega y Gasset: “Eu sou eu e as minhas circunstâncias”. Em determinados contextos existenciais, marcados pelo rebaixamento dos valores morais e coletivos, a prática da honestidade e das virtudes cívicas torna-se um procedimento quase heróico; implica confrontar, a cada dia, as forças dissolutórias da iniqüidade, da violência, das concessões fáceis e pusilânimes, do poder econômico, dos apelos midiáticos menos edificantes.

Prevalece o mais desabrido consumismo, dissociado de qualquer padrão de moralidade e de respeito às tradições históricas e comunitariamente construídas, tornando subjetivos e relativos os valores das relações humanas. Não são valorizados os projetos compartilhados no plano da família, da comunidade, da pátria e da civilização. Pessoas eleitas ou aprovadas em concursos públicos para exercerem cargos em nome do bem comum tornam-se predadores, serviçais menores de si mesmos, de sua ganância e ambição desmedidas.

A situação se torna ainda mais complexa quando atos manifestos de má-fé e de enriquecimento ilícito são conscientemente confundidos, para tudo misturar e impedir o justo juízo, com erros ou divergências técnicas de interpretação jurídica, com avaliação e escolhas em situações concretas nem sempre claras e bem delineadas, impondo delicadas opções para quem exerce a difícil missão de decidir em nome do interesse público.

O que estamos vivendo mostra o ensandecimento da lógica do capitalismo levada às suas últimas conseqüências - o reino absolutizado do dinheiro tão vigorosamente denunciado pelo Príncipe da Paz, o Cristo que humanizou e abriu o grande Deus da tradição judaica a todos os povos. Dentro dessa visão unidimensional está aberto o caminho para as atrocidades que estamos vivendo e sofrendo. É a corrupção, é a violência dessa coisa estranha chamada crime organizado, mas são também as mães que abandonam os filhos recém-nascidos, filhos que matam pais, amigos e irmãos que se estranham e vão aos limites do homicídio por conta de uma herança ou de um acerto contábil.

No momento em que se coloca a urgência de uma profunda reforma política e que se abre até mesmo a possibilidade de uma assembléia constituinte, é necessário recordar que são as pessoas que fazem e executam a lei. A história ensina que um bom antídoto contra a decadência moral e contra a prevalência dos instintos primários do egoísmo é despertar o desejo e a motivação das pessoas em torno de ideais superiores. O sentimento compartilhado da pátria tem forte apelo simbólico e real. Em um horizonte visível, é pensar o país que queremos em 2022, na perspectiva das comemorações do bicentenário da Independência do Brasil, para que possamos celebrar, além de outras conquistas, a vitória do Estado e da sociedade sobre a violência e a corrupção.

* Ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome

Publicado Correio Braziliense 14/08/2006
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