Programa Casa de Família promove
inclusão produtiva

Acompanhamento integral da família -
da infância à terceira idade

Elismar de Abreu Lima saiu de Anápolis (GO), há cinco anos. Estava em busca de uma vida melhor. Acabou indo morar na beira da estrada, nas imediações do município de Goianésia, com sua mulher e as duas filhas. Para sobreviver, explorava o lixão municipal, a poucos metros de sua casa.

Junto com Elismar, estava Ibelalícia de Moraes. Natural de Patos de Minas, viúva, 50 anos, mãe de quatro filhos, Dona Licinha, como é conhecida, também fazia do lixo o meio de sobrevivência de sua família. No total, eram 23 famílias acomodadas na beira da estrada daquele município goiano, situado a 300 quilômetros de Brasília. Todas, adultos, jovens e crianças, retirando do lixo o seu sustento.

Para alterar aquela realidade, somente uma profunda intervenção. Foi o que ocorreu com a ação do Programa de Apoio Integral à Família – Casa da Família, executado pela Secretaria de Promoção Social de Goianésia em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS). Agora, a vida é outra. As famílias mudaram-se para um bairro digno, com água, esgoto e luz elétrica em suas casas. Os adultos se organizaram em uma associação e aprenderam que não estavam lidando com lixo, mas com material reciclável, uma nova fonte de renda.

Aprenderam também sobre cuidados especiais que deveriam ter naquela atividade tão importante para a comunidade. Separam o alumínio, garrafas plásticas e demais matérias que são vendidas e convertidas em renda, numa média de dois salários mínimos por família. As crianças nunca mais puseram seus pés no lixão; hoje estão todas na escola.

“A transformação de uma comunidade é um processo lento, mas que, com objetividade e perseverança, resulta em bons frutos.” Assim Ivanildes Barbosa de Oliveira, coordenadora municipal da Casa da Família, define seu trabalho. Ela vê com satisfação os resultados obtidos até agora, se lembrando dos desafios enfrentados. “No início era difícil se adaptar àquela coisa de ter que usar luvas, botas e máscaras”, conta Nelson Souza, integrante da associação. “Com o tempo a gente vai aprendendo a fazer as coisas da melhor forma.” Dona Licinha lembra de como estranhava aquela conversa sobre criar uma associação, mas reconhece: “Trabalhar assim rende muito mais”.

Ivanildes, a psicóloga Arline Figueiredo e a assistente social Maria Luiza Corandin formam a equipe que atua em Goianésia. A atuação deste triunvirato já está dentro da lógica do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), preconizado pela recém-aprovada política nacional para o setor. Jovens, crianças, idosos, portadores de deficiência, famílias inteiras se dirigem à Casa da Família, onde são atendidos e encaminhados, de acordo com sua necessidade.

A Casa da Família criou fortes relações de parceria com diversas instituições de Goianésia, configurando, uma atuante rede de proteção social. Além da atuação junto à associação dos catadores de lixo, o programa trabalha com idosos, com qualificação profissional e com a defensoria pública municipal. A Casa da Família busca associar a atenção integral às famílias com programas de inclusão produtiva, que visam à emancipação social.

Desenvolvimento comunitário

Francisca Tavares de Moura, 68 anos, freqüenta há pouco tempo o Unidas Aerorancho, mesmo nome do bairro onde mora, em Campo Grande (MS). Uma agente comunitária de saúde foi quem lhe falou sobre os serviços da Unidade Descentralizada de Assistência Social (Unidas). A primeira visita aconteceu em novembro. Dona Francisca não vacilou em aceitar participar do grupo de idosos do centro. Junto com o marido, Joaquim Sabino de Moura, 82 anos, e o filho Edson, 32, Dona Francisca forma uma das famílias atendidas pela Casa da Família.

Como idosos, eles têm acesso a programas específicos para a idade. Além disto, Dona Francisca relata alguns sintomas percebidos no comportamento de Edson: timidez excessiva, esquecimentos freqüentes, dificuldade de aprendizado e momentos de isolamento em um mundo próprio. “Por várias vezes, ele conversa sozinho, mas quando a gente fala, ele não aceita que tem problemas”, revela. Edson nunca foi ao médico e a palavra psicólogo provoca um comportamento ainda mais arredio. Com jeito, entretanto, os profissionais do programa estão colhendo alguns resultados. “Ele estava com sérios problemas dentários, então conseguimos convencê-lo a ir ao dentista”, conta a psicóloga Thaís Helena de Paula. “Preparamos tudo com o posto de saúde e ele foi sozinho”, completa.

O que parece simples, para dona Francisca é quase um milagre. “Era difícil ele sair de casa e agora já está vindo aqui”, comemora. Os benefícios estendem-se ao cotidiano das senhoras nas reuniões do grupo de idosos. “Por enquanto, só conversamos e nos encontramos uma vez por semana”, comenta. “Mas é tão importante estar no meio de pessoas que não discriminam a gente, que nos dão atenção, muita gente trata mal os idosos”, reflete.

A meta de atendimento é de 300 famílias e a equipe já tem 204 selecionadas, todas devidamente incluídas no Cadastro Único. Em pouco tempo, quando a meta for atingida, a equipe tentará identificar que outras atividades podem ser criadas para atender a todas as necessidades do público do programa. Dona Francisca e outros idosos, por exemplo, farão parte de um grupo de hipertensos que já está sendo formado. Feliz com a atenção que tem recebido, ela, aos poucos, tenta convencer o marido a acompanhá-la nas reuniões do grupo de convivência.

No bairro Aerorancho, as atividades complementares à escola, oferecidas para crianças de sete a 15 anos, compreendem aulas de natação, futebol, capoeira, teatro, artesanato e auxílio-tarefa. Os adolescentes em busca do primeiro emprego têm acesso a cursos de capacitação profissional, como informática básica. Para a população adulta, há ainda uma série de cursos de geração de renda, como corte e costura, produção de salgados, bijuterias, doces, tortas e bolos, peças íntimas e beleza. Para completar, o grupo de idosos, além dos encontros semanais, pode ter acesso a aulas de hidroginástica.

No desenvolvimento das atividades, não há diferenciação entre os beneficiários da Casa da Família e os demais moradores da comunidade. Todos podem estar inseridos em qualquer uma das atividades, de acordo com seu interesse e os programas dos quais fazem parte.

A diferença é que no programa Casa da Família o acompanhamento específico das famílias é feito por duas psicólogas e duas assistentes sociais, com vistas à redução da situação de vulnerabilidade em que vivem. Dessa forma, em um mesmo estabelecimento funcionam todas as atividades planejadas para atender programas federais como Agente Jovem e Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI). Ao concentrar todas as ações em um único espaço, próximo à população beneficiária, os profissionais podem acompanhar com mais eficiência o desenvolvimento da comunidade, contribuindo para a proposta do programa de atender as famílias de forma integral, ou seja, da infância à terceira idade.

Ação continuada

A experiência de Adriano Moraes Paes, 19, é um exemplo disso. Ex-agente jovem, sua principal preocupação, assim como todos os que participam deste programa, era quanto à conquista de um emprego. Ser agente jovem deixou-o mais disciplinado e responsável. “Eu só pensava em bagunçar antes do programa, não queria saber de nada”, conta. “Mas quando saí, não queria mais ficar parado, sem fazer nada produtivo”, acrescenta. Adriano completou 18 anos, idade limite para participação no Agente Jovem, em 2003. A localização do Unidas em sua comunidade e a atuação de todos os programas de forma integrada lhe ajudou a descobrir uma vocação. Por indicação de uma amiga, também agente jovem, Adriano ofereceu-se para uma vaga de recreador no programa Estação Criança, que atende a faixa etária de quatro a seis anos.

A meta do Estação Criança é resgatar o direito de meninos e meninas em situação de extrema pobreza por meio de atividades lúdicas. Em Campo Grande, por exemplo, um ônibus com brinquedos pedagógicos, equipamento de vídeo e livros infantis vai até as comunidades mais carentes para realizar o atendimento. O ofício de Adriano é preencher uma parte do dia dessas crianças com recreação. “Na fase de experiência, li muito sobre o projeto para saber como agir”, revela. “É um trabalho tranqüilo, me sinto muito bem fazendo”, afirma.

Adriano está no terceiro ano do ensino médio e a experiência no Estação Criança ajudou-o a escolher a faculdade que pretende cursar: Educação Física. No programa, recebe um salário mínimo, praticamente o mesmo que a mãe consegue tirar durante um mês de trabalho como doméstica.O relacionamento em casa mudou radicalmente. “Antes brigava muito com minha mãe”, diz. O jovem agora quase não discute e sente-se responsável pelo desenvolvimento da família. “Todo mundo comenta que não sou mais o mesmo”, garante.


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Para saber como partipar deste programa
protecaosocialbasica@mds.gov.br

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